Explicação? Pra quê?

(este post não é dedicado a ninguém)

O ódio de quem ama a gente

Dia desses recebi um e-mail de uma amiga querida dizendo que me odiava. Achei que era brincadeira e resolvi telefonar pra ela e saber o que estava acontecendo. E, de fato, ela estava me odiando. Com todas as suas forças. Estava nervosa, dava pra sentir sua pressão arterial explodindo do outro lado da linha. Ela espumava. Babava no telefone. Eu não podia ver, mas sentia seus olhos faiscando, emitindo uma energia nada positiva em direção à imagem mental que ela tinha de mim. Tive a sensação de que tamanha hidrofobia deve ter feito a ligação custar bem mais caro do que o normal. Afinal, as ondas de rádio do meu celular encontraram imensa dificuldade em penetrar naquela verdadeira bomba atômica de ódios incontroláveis.

Mas o que será que eu fiz? – foi a primeira pergunta que me veio à cabeça. Uma pessoa tão querida, que eu sempre penso com ternura e que inclusive é parte importante de meu repertório de conversas e pensamentos... onde foi que eu errei?

Eis a história: fui convidado por um amigo para participar de um projeto que incluía a participação de outras pessoas. Mas como eu sou um eremita vocacional, incrustado em minha casa, escrevendo solitariamente e abarrotado de trabalho, acabei não convidando ninguém para participar deste projeto com a gente. O amigo que me convidou ficou responsável por recrutar ou aliciar (como queiram) os outros participantes e cuidar da parte operacional. Quer dizer: ele faria tudo. Eu só entrei com o "sim". Não era também nenhuma descoberta da pólvora. Um projeto interessante, simpático, mas sem grandes pretensões ou expectativas.

Minha amiga raivosa, quando soube do tal projeto, se sentiu a última pessoa do mundo porque eu não a convidei para participar. Ficamos horas ao telefone até que ela se acalmasse. Ela não aceitava o fato de eu não pensar automaticamente nela quando diante de um projeto daqueles. Sutilmente, jogou na minha cara que tinha me ajudado em outras ocasiões e que portanto eu tinha obrigação moral de lembrar de seu nome. Sempre. Quer dizer, acho que não foi sutilmente, ela disse isso na lata mesmo. E mais: informações desencontradas deram a ela a impressão de que eu era um dos cabeças do projeto, o que aprofundou ainda mais a sua fúria desenfreada.

Entendi o ponto de vista da minha amiga zangada, mas a fiz entender que sua reação era absolutamente desproporcional à gravidade da situação. Ela não precisava daquele projeto. Seu trabalho pessoal é muito maior que ele. Eu não estava escondendo o leite dos meus amigos com intenção egoísta de sobrepujá-los profissionalmente. Cheguei até a oferecer o meu lugar para ela. Mas ela não aceitou. Disse que o problema era eu não ter lembrado dela, que eu jamais poderia ter cometido tamanha injustiça.

Achei graça da situação. Primeiro, em função da já mencionada desproporcionalidade. Depois por sentir que minha amiga destemperada na verdade estava me dando uma prova incontestável de que me ama profundamente e que a simples idéia de eu não pensar nela desencadeou essa tsunami emocional absolutamente devastadora. Amor nos tempos da cólera. Passou pela minha cabeça, rapidamente, a idéia de que eu deveria ter ficado ressentido com a situação. A insinuação de egoísmo e ingratidão, a cobrança exacerbada, a acusação implícita de falta de caráter, etc. Lembrei, inclusive, que ela, antes de me conhecer, havia dito cobras e lagartos sobre mim e meu trabalho num site de grande visitação. Mas eu preferi relevar tudo isso e ficar mesmo com o amor. Mesmo que incontido e desembestado. Preferi ver o lado positivo deste sentimento que de tão profundo, se tornou desgovernado. E acho que fiz uma boa escolha. Até porque, a despeito de tamanha crise, somos amigos recentíssimos. Temos muitas afinidades e nos tratamos com respeito e carinho, porém só nos vimos pessoalmente uma vez na vida. Mas isso não importa. Agora sei que nos amamos. E o amor supera qualquer barreira. Ah, o amor...

Henrique Szklo é escritor, sociopata e meu futuro professor de redação, só que ainda não sabe disso. Tem um cachorro que é a cara dele.



Este texto me fez lembrar de uma amiga cujo passatempo preferido é brigar comigo. Prova disso foi o entusiasmo e alegria que ela demonstrou ao responder minha pergunta:
- Quem sabe eu não faço uma homenagem pra ti, não é mesmo?
- Eu não vejo um motivo para não fazê-la.

Fernanda Fontes é estagiária, estuda Direito e é minha amiga, mas apesar disso tudo até que ela é uma boa pessoa. E sabe que o ódio dela é muito importante pra mim.



(Hoje é dia da amizade luso-afro-carioca.)
(Ah, quase me esqueço. Hoje também é dia do Amor.)

"Todo mundo nasce sonhando com uma Honda."

(Dedicado aos bebês que nascem com câncer de ânus. O que será que eles fazem para merecer isso?)

Meu pai é um publicitário famoso

– Pai?
– Quem é você?
– Sou eu, papai!
– Mas que papai, o quê! Como foi que você entrou aqui?
– Eu sou seu filho!
– Ficou louco? Segurança! Alguém chame a segurança!
– Não adianta gritar que já foi todo mundo embora, velho.
– "Velho" é o golpe que você está querendo me dar, seu vigarista. Eu não sou seu pai!
– É, sim! Lembra da Dilminha que fazia o tráfego na sua primeira agência?
– Claro que não! Eu tenho mais de seiscentos funcionários, seu ridículo! Agora ponha-se daqui para fora ou eu chamo a polícia!
– Pode chamar. Quem deve aqui é o senhor, papi.
– "Papi" é o cacete!
– O Cacete, não. Esse aí era aquele diretor de arte que sabia dos seus podres mas que mesmo assim o senhor mandou embora e depois ele colocou o senhor no pau, ameaçou contar umas coisas na imprensa e levou a maior grana sua. Grande Cacete! Lembra dele?
– É claro que eu lembro. Mas como é que você sabe dessa história?
– Tô te falando, coroa. Eu sou seu filho!
– Filho coisa nenhuma! Eu já disse que não conheço nenhuma Jadilma da Silva!
– Jadilma da Silva?
– Não é o nome que você disse? O nome da sua mãe?
– Até agora eu só disse o apelido dela. Dilminha...
– Você não falou o nome dela?
– Falei nada.
– É claro que falou, seu moleque!
– Falei coisa nenhuma! E o senhor vai querer engrossar, vai? O senhor é quem sabe. Amanhã mesmo eu vou até o Ratinho.
– Ratinho? Fazer o quê lá?
– Teste de DNA. Vou provar para todo mundo que eu sou o filho bastardo do publicitário mais famoso deste país!
– Espere aí. Eu não quero escândalos.
– Então assume, painho.
– Que painho, meu amigo? Painho nada! Quantos anos você tem?
– Vinte e um.
– E só resolveu aparecer agora?
– A minha mãe era muito orgulhosa. Nunca me deixou procurar o senhor. Mas agora que ela morreu...
– Já foi tarde.
– Opa! Não fala assim da velha, não!
– Transou com a agência inteira, aquela...
– Não fala assim da mamãe, paizão.
– EU NÃO SOU SEU PAI!
– Claro que é! Eu sou a sua cara! O cabelo é igualzinho. Tô até terminando a facú de propaganda e marketing. Quero ser que nem o senhor!
– Ai, meu Deus, isso não está acontecendo! Deve ser o estresse. Estou ganhando dinheiro demais. É isso.
– Quero ser seu aprendiz, papai!
– CHEGA! Pare com essa tortura de "papai", "papai", "papai"! Quanto é que você quer para desaparecer da minha vida?
– Que é isso, paizoca! Não era para tanto. Mas já que o senhor está nadando na nota, acho que eu vou pedir um presente.
– Quanto...
– Quinhentos mil.
– Nem pensar. Isso é um assalto.
– Tá bom. Tá bom. Então me arruma um estágio na sua agência.
– Um estágio?
– É. Mas tem que ser remunerado.
– ...
– Que foi, coroa?
– Esses quinhentos mil que você quer... dá para dividir em quantas vezes?

André Gomes
jornalista e publicitário



Hoje é dia do publicitário. Parabéns à pior profissão do mundo.

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